Formas surpreendentemente semelhantes aparecem em imagens produzidas por culturas separadas por milhares de quilômetros e milhares de anos. Coincidência visual, objetos rituais semelhantes ou vestígio de uma conexão ainda desconhecida?
Existe uma forma que se repete em determinadas imagens antigas e que, observada com olhos modernos, parece imediatamente familiar: um corpo geralmente retangular, uma parte superior arqueada e uma estrutura que lembra uma pequena bolsa com alça.
Nas últimas décadas, fotografias de relevos da Mesopotâmia, esculturas mesoamericanas e símbolos encontrados em Göbekli Tepe passaram a ser reunidas na internet sob um nome provocativo: “Bolsa dos Deuses” — The Handbag of the Gods.
A expressão é moderna. Não existe evidência de que essas culturas utilizassem uma denominação comum para esses objetos, tampouco de que todas as representações possuíssem a mesma função. Ainda assim, a semelhança visual existe e produz uma pergunta legítima: estamos observando representações independentes de objetos semelhantes ou fragmentos de uma tradição simbólica que atravessou culturas e períodos diferentes?
Para investigar essa questão, é necessário primeiro separar aquilo que a arqueologia documenta daquilo que permanece no campo das interpretações e hipóteses.
Mesopotâmia: aqui existe realmente um recipiente
Entre os exemplos associados à chamada “Bolsa dos Deuses”, os relevos neoassírios estão entre os mais claros.
No Palácio Noroeste de Assurnasirpal II, construído em Nimrud, antiga Kalhu, no território do atual Iraque, figuras sobrenaturais aladas aparecem repetidamente segurando pequenos recipientes. Os relevos são datados aproximadamente entre 883 e 859 a.C.
O Metropolitan Museum of Art identifica explicitamente o objeto carregado por algumas dessas figuras como um bucket, isto é, um balde ou recipiente. Em várias representações, a outra mão segura um objeto semelhante a um cone, descrito em textos acadianos como um “purificador” (THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, s.d.).
Essas figuras são frequentemente relacionadas aos apkallu, sábios sobrenaturais da tradição mesopotâmica. O próprio Metropolitan Museum ressalta, entretanto, que sua identificação não é completamente simples: as figuras possuíam caráter protetor e provavelmente reuniam diferentes significados mitológicos.
Essa distinção é importante porque imagens populares na internet costumam chamar automaticamente essas figuras de Anunnaki. A documentação museológica citada, porém, não sustenta essa identificação direta.
Nos relevos, o pequeno recipiente aparece associado a rituais de proteção, purificação ou possivelmente fertilidade. Uma das interpretações propostas é que o objeto semelhante a um cone pudesse fazer referência à espata masculina da tamareira, utilizada juntamente com água em processos de polinização. O termo acadiano relacionado ao cone, entretanto, também remete à ideia de purificação (THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, s.d.).
Portanto, no caso assírio, a existência de um recipiente representado nas imagens não constitui propriamente um mistério. O que permanece aberto é a compreensão completa de sua função simbólica e ritual.
Então por que ele parece tanto com uma bolsa moderna?
Uma das explicações mais simples é estrutural: uma alça posicionada sobre um recipiente produz inevitavelmente uma forma que, para o observador contemporâneo, pode lembrar uma bolsa.
É justamente nesse ponto que a investigação se torna delicada.
Quando reconhecemos uma forma antiga como algo que utilizamos atualmente, nosso cérebro tende a atribuir ao objeto antigo a mesma função do objeto moderno. Entretanto, semelhança visual e identidade funcional não são a mesma coisa.
Um recipiente ritual pode parecer uma bolsa. Um incensário pode apresentar formato semelhante. Uma representação arquitetônica também pode produzir uma silhueta comparável.
O problema metodológico começa quando a aparência passa a ser utilizada como evidência suficiente para afirmar que objetos semelhantes possuíam necessariamente a mesma função, a mesma origem ou faziam parte de uma única tradição cultural.
Göbekli Tepe: três formas que continuam sem resposta definitiva
É em Göbekli Tepe que a comparação se torna especialmente intrigante.
O sítio arqueológico, localizado no sudeste da atual Turquia, pertence ao Neolítico Pré-Cerâmico e antecede em muitos milênios os relevos neoassírios.
Um dos elementos mais conhecidos do sítio é o Pilar 43, também chamado de “Pedra do Abutre”. Sua superfície apresenta uma composição complexa formada por animais, aves, serpentes, um escorpião e uma figura humana aparentemente sem cabeça.
Na parte superior do pilar aparecem três formas retangulares com elementos arqueados acima delas. Observadas isoladamente, essas formas podem lembrar pequenas bolsas ou recipientes com alça, razão pela qual passaram a ser frequentemente incluídas nas comparações relacionadas à chamada “Bolsa dos Deuses”.
No entanto, a semelhança visual, por si só, não determina aquilo que essas formas representam. A interpretação dessas imagens precisa considerar o contexto arqueológico do próprio monumento, sua cronologia e o conjunto simbólico no qual estão inseridas.

Sobre cada retângulo existe uma estrutura arqueada. Visualmente, o conjunto pode lembrar pequenas bolsas, mas aqui existe uma diferença fundamental: ninguém está carregando esses objetos. Eles aparecem isolados na composição.
Oliver Dietrich, arqueólogo ligado ao Deutsches Archäologisches Institut, descreve essas figuras como três objetos retangulares associados a elementos semelhantes a cúpulas ou arcos e afirma explicitamente que seu significado não pode ser determinado de maneira definitiva (DIETRICH, 2016).
Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores é particularmente interessante: essas formas poderiam representar esquematicamente os próprios recintos de Göbekli Tepe vistos lateralmente. Nesse cenário, o retângulo corresponderia às paredes, enquanto a estrutura arqueada poderia representar algum tipo de cobertura. Os animais posicionados sobre cada uma dessas formas talvez funcionassem como emblemas relacionados a diferentes grupos ou recintos (DIETRICH, 2016).
Trata-se, entretanto, de uma hipótese, e não de uma conclusão.
Outros pesquisadores também discutiram as formas de Göbekli Tepe como objetos semelhantes a caixas acompanhadas por elementos comparáveis a alças, demonstrando como a interpretação da iconografia pré-histórica está longe de ser simples (BANNING, 2011).
Por isso, afirmar que os construtores de Göbekli Tepe esculpiram literalmente “bolsas” significaria ir além das evidências disponíveis. É possível fazer uma afirmação mais cautelosa — e talvez mais interessante: as formas existem e sua interpretação permanece aberta.
Uma diferença de milhares de anos
Esse detalhe é fundamental para a comparação.
Os monumentos de Göbekli Tepe pertencem aos primeiros períodos do Neolítico, enquanto os relevos assírios de Nimrud foram produzidos milhares de anos depois. Portanto, não estamos comparando duas sociedades contemporâneas, mas imagens separadas por grandes distâncias temporais, geográficas e culturais.
Isso torna a semelhança visual intrigante, mas também torna qualquer afirmação de continuidade direta muito mais difícil de demonstrar.
Para estabelecer uma transmissão cultural entre esses períodos seriam necessárias evidências intermediárias: objetos, rotas, tradições iconográficas sucessivas e contextos arqueológicos capazes de acompanhar a possível permanência ou transformação daquele símbolo entre diferentes sociedades.
Até o momento, essa cadeia não foi demonstrada.
O outro lado do Atlântico: os olmecas
A discussão ganha uma nova dimensão quando chegamos à Mesoamérica.
No sítio arqueológico de La Venta, no atual México, o chamado Monumento 19 representa uma figura humana associada a uma grande serpente. A personagem segura um pequeno objeto cuja forma pode lembrar uma bolsa, abrindo uma nova comparação com as representações observadas anteriormente na Mesopotâmia e em Göbekli Tepe.
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E agora sim, juntando os três trechos que organizamos, esse artigo fica com uma estrutura muito mais uniforme: introdução contínua, seções bem definidas, linguagem investigativa e uma separação clara entre o que é documentado, o que é interpretação e o que permanece hipótese.

Semelhança é evidência de contato?
A personagem segura um pequeno objeto cuja forma pode lembrar uma bolsa. O material publicado pelo Mesoweb identifica o personagem como uma figura olmeca associada à serpente emplumada e descreve o objeto carregado como uma bolsa de incenso utilizada em contexto xamânico (SKIDMORE, 2003).
Nesse caso, portanto, temos novamente um objeto que pode realmente funcionar como um recipiente ritual. Isso, entretanto, não significa que seja necessariamente o mesmo tipo de objeto representado nos relevos assírios, muito menos que exista uma conexão histórica direta entre Mesopotâmia e Mesoamérica.
A semelhança visual existe. A relação histórica, por outro lado, permanece sem demonstração.
Por si só, uma semelhança formal não constitui evidência suficiente de contato. Civilizações diferentes podem chegar independentemente a soluções semelhantes. Um recipiente precisa guardar alguma coisa, e uma alça facilita seu transporte. Essa combinação formal é suficientemente simples para surgir diversas vezes ao longo da história sem qualquer contato entre seus criadores.
Esse fenômeno pode ser compreendido como convergência cultural ou funcional: sociedades independentes enfrentam necessidades semelhantes e podem desenvolver respostas visualmente parecidas.
Isso não significa, porém, que a possibilidade de transmissão cultural deva ser descartada. Objetos, técnicas, mitos, símbolos e palavras viajaram por grandes distâncias durante toda a história humana. Por essa razão, a existência de semelhanças merece investigação. O cuidado necessário está em não transformar uma possibilidade em conclusão antes que existam evidências suficientes.
E o Egito Antigo?
O Egito aparece frequentemente em montagens e comparações relacionadas à chamada “Bolsa dos Deuses”. Um dos objetos mais citados nesse contexto é a Paleta de Narmer, produzida no início do período dinástico egípcio.
A peça apresenta o rei Narmer, inimigos derrotados, porta-estandartes, animais mitológicos, uma figura responsável por carregar as sandálias do rei e diversos outros elementos simbólicos. Entretanto, a descrição detalhada disponibilizada pelo British Museum não identifica na peça uma “Bolsa dos Deuses” comparável aos recipientes observados nos relevos assírios (BRITISH MUSEUM, s.d.).
Esse exemplo evidencia um problema recorrente. Quando determinada hipótese se populariza, imagens passam a ser incorporadas à narrativa simplesmente porque apresentam formas vagamente semelhantes. Com isso, cria-se a impressão de que determinado símbolo estaria presente em “todas as civilizações”.
A documentação arqueológica, porém, precisa ser examinada individualmente e dentro de seu contexto. Alguns exemplos apresentam correspondências visuais mais claras; outros são discutíveis; e alguns sequer representam aquilo que determinadas montagens afirmam.
Estamos olhando para o mesmo objeto?
Essa talvez seja a pergunta central de toda a discussão.
Imagine três representações: um recipiente carregado por uma figura sobrenatural assíria; três formas abstratas gravadas em um pilar neolítico na Anatólia; e uma pequena bolsa ritual segurada por uma figura olmeca na Mesoamérica. Quando colocadas lado a lado, essas imagens parecem formar uma narrativa comum.
Mas a própria narrativa pode surgir justamente porque as imagens foram reunidas dessa maneira.
Quando observadas separadamente e dentro de seus respectivos contextos arqueológicos, cada representação pertence a um universo cultural específico. Esse é um dos desafios mais interessantes da arqueologia comparativa.
O cérebro humano possui grande capacidade para reconhecer padrões. Em alguns casos, esses padrões revelam conexões reais. Em outros, uma conexão aparente pode ser construída porque já estamos procurando por ela.
Uma civilização global perdida?
Uma das interpretações mais extraordinárias associadas à chamada “Bolsa dos Deuses” propõe que essas imagens seriam vestígios de uma civilização muito mais antiga. Segundo essa hipótese, determinados conhecimentos ou símbolos teriam sido transmitidos a diferentes populações e posteriormente preservados em tradições independentes.
A possibilidade é fascinante, mas, até o momento, não existe uma sequência arqueológica capaz de demonstrar que os recipientes assírios, as formas representadas no Pilar 43 de Göbekli Tepe e o objeto olmeca descendam de uma única tradição cultural global.
Isso não significa que a hipótese deva ser proibida ou ignorada. Significa apenas que deve continuar sendo tratada pelo nome adequado: hipótese.
Perguntas fazem parte da investigação. A diferença entre uma investigação e uma afirmação conclusiva está na quantidade e na qualidade das evidências necessárias para transformar uma possibilidade em conclusão.
O mistério talvez esteja em nós
Existe ainda outra camada importante nessa discussão. Quando observamos imagens antigas, quase inevitavelmente tentamos interpretá-las utilizando referências modernas.
Vemos uma forma retangular com alça e pensamos em uma bolsa. Observamos algo circular no pulso de uma estátua e podemos associá-lo a um relógio. Encontramos uma figura de aparência aerodinâmica e somos tentados a compará-la a um avião.
O reconhecimento visual, porém, não garante que os povos antigos estivessem representando aquilo que nós, observadores contemporâneos, acreditamos reconhecer.
O objeto antigo pertence ao universo cultural de quem o produziu, e não necessariamente ao nosso.
Talvez, por isso, a pergunta mais interessante não seja: “Por que tantas civilizações possuíam a mesma Bolsa dos Deuses?”
Uma pergunta metodologicamente mais produtiva seria: “O que cada uma dessas culturas acreditava estar representando?”
A mudança parece pequena, mas transforma toda a investigação.
A semelhança continua sendo fascinante
Nenhuma dessas cautelas elimina o mistério. Ao contrário, elas permitem examiná-lo com maior precisão.
Os relevos assírios realmente apresentam figuras carregando recipientes. O Monumento 19 de La Venta realmente mostra uma figura segurando um objeto semelhante a uma bolsa ritual. E o Pilar 43 de Göbekli Tepe realmente possui três formas arqueadas cuja interpretação permanece objeto de discussão.
Esses elementos já são suficientemente interessantes sem que seja necessário acrescentar uma explicação definitiva antes de existirem evidências capazes de sustentá-la.
A investigação, portanto, pode permanecer aberta. Talvez estejamos diante de simples convergência formal. Talvez símbolos semelhantes tenham surgido independentemente em diferentes sociedades. Talvez futuras descobertas revelem relações que atualmente desconhecemos.
A arqueologia trabalha justamente com a reconstrução de mundos desaparecidos a partir de fragmentos incompletos. E fragmentos incompletos exigem prudência interpretativa.
Entre evidência e hipótese
A chamada “Bolsa dos Deuses” funciona como um excelente exemplo de como uma investigação pode começar. Primeiro encontramos uma semelhança. Em seguida, formulamos uma pergunta. Depois procuramos contexto, comparamos datas, analisamos funções e buscamos evidências independentes. Somente então podemos avaliar quais explicações continuam plausíveis.
O problema metodológico surge quando o processo é invertido: começa-se pela conclusão e, posteriormente, selecionam-se apenas as imagens que parecem confirmá-la.
Pensamento crítico não significa rejeitar possibilidades incomuns. Também não significa aceitá-las apenas porque são fascinantes. Significa permitir que a pergunta permaneça aberta tempo suficiente para que as evidências possam responder.
Talvez essas imagens preservem vestígios de uma história que ainda não compreendemos completamente. Talvez revelem algo igualmente interessante: sociedades separadas por tempo e espaço encontrando formas semelhantes para representar objetos, ritos e ideias.
Por enquanto, uma constatação pode ser feita com segurança: a semelhança existe.
A explicação para ela permanece aberta.
E é justamente nesse espaço entre evidência e hipótese que a investigação começa.
REFERÊNCIAS
BANNING, Edward B. So fair a house: Göbekli Tepe and the identification of temples in the Pre-Pottery Neolithic of the Near East. Current Anthropology, Chicago, v. 52, n. 5, p. 619-660, 2011. DOI: 10.1086/661207. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/259561913_So_Fair_a_House_Gobekli_Tepe_and_the_Identification_of_Temples_in_the_Pre-Pottery_Neolithic_of_the_Near_East. Acesso em: 20 set. 2026.
BRITISH MUSEUM. Cast; palette: Narmer Palette. London: The British Museum, [s. d.]. Disponível em: https://www.britishmuseum.org/collection/object/Y_EA35714. Acesso em: 20 set. 2026.
DIETRICH, Oliver. Of animals and a headless man: Göbekli Tepe, Pillar 43. Berlin: Deutsches Archäologisches Institut, 14 out. 2016. Disponível em: https://www.dainst.org/en/blogs/of-animals-and-a-headless-man-goebli-tepe-pillar-43/599. Acesso em: 20 set. 2026.
SKIDMORE, Joel. Life and death in Ancient Mexico. Mesoweb, 2003. Disponível em: https://www.mesoweb.com/features/life_death/life00.html. Acesso em: 20 set. 2026.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Relief panel. Neo-Assyrian, ca. 883-859 B.C. New York: The Metropolitan Museum of Art, [s. d.]. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/322615. Acesso em: 20 set. 2026.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Relief panel. Neo-Assyrian, ca. 883-859 B.C. New York: The Metropolitan Museum of Art, [s. d.]. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/322614. Acesso em: 20 set. 2026.